por: Guaraci de Lima Silveira

 

 

Desde criança via o domingo de ramos como algo muito especial. Ali começava uma semana inteira de muitos encontros, festejos e reflexões. A Semana Santa comemorada em cidades do interior sempre marca os corações dos seus habitantes. Na minha cidade os fazendeiros alugavam casas onde se estabeleciam com suas famílias para aqueles momentos ímpares onde Jesus seria o grande reverenciado. Os clérigos se esmeravam em sermões e liturgias. As filhas de Maria nos adornos aos andores que passariam pelas ruas da cidade levados pela irmandade do Sagrado Coração de Jesus. Era tudo mágico e ao mesmo tempo obscuro para a maioria das mentes daqueles lugares. Muitos aproveitavam os festejos para conhecer pares, futuros cônjuges, outros para vender seus gados, outros para fins indecifráveis ou impossíveis de serem ditos. Era, enfim, a Semana Santa.

Findos aqueles tempos e ao encontrar a Doutrina Espírita, tudo passou a ter outras conotações. Lendo os Evangelhos notamos que os quatro evangelistas citaram a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Mt (21 – 01-11). Mc (11 – 01-11). Lc (19 – 29-38) e Jo (12 – 12-17). Sim, o fato é notável. O Profeta Zacarias que viveu no Séc. VI a.C. disse:

“Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e Salvador, pobre, e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta”. Zacarias 9:9.

Com o Domingo de Ramos inicia-se a Semana Santa. Antes era celebrada apenas no sábado e domingo da ressurreição. Posteriormente incluíram os festejos para a semana toda, a saber:

Domingo de Ramos – Entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, antes do seu martírio e morte.

Segunda-Feira – Lembrança da prisão de Jesus

Terça-Feira – Lembrança das dores de Maria Santíssima

Quarta-Feira – A famosa Procissão do Encontro entre Jesus e sua Mãe na subida do Calvário. Ai, como eram doridos aqueles momentos. Muitas lágrimas rolavam dos olhos daquelas pessoas presentes.

Quinta-Feira – Lembrança da última Ceia de Jesus com os Apóstolos. A Ceia Pascal.

Sexta-Feira – Recordação da Morte de Jesus.

Sábado – O dia da espera da Ressurreição de Jesus

Domingo da Ressurreição – Celebra a vitória de Jesus sobre seus opressores. A saída do túmulo e sua glorificação.

Para os jovens daquela época o Domingo da Ressurreição tinha ainda um gostinho muito especial, pois naquele dia o Pároco liberava o baile. É… Tudo tinha que ter a autorização da Igreja!

Essas informações acima foram colocadas para referendar esses dias que ficaram famosos no Ocidente. Todos que vieram do catolicismo viveram, com certeza, as emoções daquelas liturgias, procissões, sermões e lágrimas. Qual a validade de tudo? Podemos perguntar. O ser humano é por excelência dramático. O drama nada mais é que uma vivência difícil que chama a atenção pelos seus lances de dor e sofrimento. Os dramaturgos bem o sabem e criam histórias dramáticas que colocam o expetador frente a frente com suas próprias histórias. William Shakespeare foi um mestre neles e, num momento raro, mata os personagens amantes para mostrar a idiotia das guerras entre famílias e os resultados funestos que daí podem advir. Talvez hoje seriam as guerras sociais, excludentes e brutais.

Jesus, o ponto central dessas celebrações, quase sempre passa por um Ser pacato que a tudo aceita sem reclamar. Sim, Ele nada teria que reclamar de seres ignorantes e perversos. Ele bem os entendia como disse João no seu Evangelho – Cap. 2 – 24-25: “Mas Jesus não se confiava a eles, porque os conhecia a todos.  E não necessitava que alguém lhe desse testemunho acerca do homem, pois Ele bem conhecia o que havia na natureza humana”. Isso mais nos encanta naquele Ser extraordinário que nos trouxe o caminho para Deus.

Hoje, como espíritas, podemos ver a Semana Santa como mais uma semana nas quais devemos sempre justificar nossa fé pelo trabalho e pelo estudo. Desde o momento em que Jesus foi preso no Monte das Oliveiras até o momento da sua saída triunfal do sepulcro e aparição para Maria Madalena, temos um material vasto e profundo para reflexões. Dariam livros e livros. No futuro serão cartilhas a serem estudas nas escolas, pois todas elas serão cristãs, sem nenhuma outra denominação. Podemos, contudo sintetizar dizendo que precisamos ser aprisionados diante das propostas mundanas e partirmos para nossa real libertação, antes passando pelo jugo das religiões, do Estado e da tradição, como aconteceu a Jesus perante o Sumo Sacerdote, Pôncio Pilatos e Herodes. A subida ao calvário representa nossa ascensão a um tempo novo que se conquista bem no alto das nossas consciências. A morte para este mundo trevoso num clima de harmonia e perfeita comunhão com Deus, para ressurgir livre e continuar na evolução, agora glorificado pelo Pai.

Sim, necessitamos dessas lembranças. O homem ainda precisa tocar o concreto para entender a profundidade das coisas, por isso as procissões e todos os demais feitos promovidos pela Igreja. Os espíritas já conseguem ver sem tocar. Daí que essas lembranças, desde o Domingo de Ramos até o ada Ressurreição deve ser como uma sequência de imagens do inconsciente a aflorar para que nos aproximemos mais e mais do nosso Mestre. As imagens externas, em andores, precisam ser substituídas por reflexões mais apuradas sobre aqueles tempos. Haverá um dia em que todos olharão Jesus como um grande libertador de consciências e entenderão Seu grande sacrifício e amor pela causa humana.

Necessário é, pois, um olhar mais apurado sobre aquelas últimas horas de Jesus no plano físico da Terra. Há muito o que analisar e refletir para transformar e crescer. Ao aceitar toda aquela demonstração das injúrias humanas, Jesus no disse que o Cristo interno necessita ser forte e lúcido para vencer o ego inferior que domina a esmagadora plaga humana. Assim, a semana santa celebrada pelos irmãos católicos passa para o espírita como uma proposta consigo mesmo de ser mais atento e efetivo em suas vidas de relações, amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, por se constituir na Lei Maior.

Busquemos entender o Evangelho de Jesus à luz da Doutrina Espírita e ele nos revelará quem somos e para que fomos criados por Deus. Há um futuro nos aguardando. Deixemos, pois, os caminhos torpes pelos quais passamos. Só nos trouxeram dor e amarguras. Exceções à parte, o homem desta atualidade não conhece verdadeiramente quem é Jesus e o celebra de forma exterior, por imagem e não por essência.

Allan Kardec em seu trabalho ímpar nos retira dos reinos das ilusões para nos colocar face a face com a razão em todas as épocas da nossa história. Bendito feito. Que possamos perceber o trabalho ímpar do insigne Codificador. É tempo de entrarmos triunfantes em nossa Casa Mental e limpá-la com ramos e mantos. Ceiarmos com Jesus e sacrificarmos nossas posturas mundanas, morrermos para o mundo das aparências e renascermos no mundo das essências, após um solilóquio com o Pai no qual possamos dizer: Perdoa-me, Pai. Eu não sabia o que fazia. Pedirmos a Jesus que se lembre de cada um de nós e que nos entronize no Seu Reino de amor e verdade, indicando-nos nossos tutores, nossas mães celestes para que, como filhos, possamos entrelaçarmos a elas e seguirmos na luz. Aí chegará o momento em que diremos: Oh Pai, como me glorificas porque não me deixastes desamparado. E teremos sede, muita sede de sabedoria e amor para dar e receber. Então nossos primeiros passos rumo à perfeição estarão consumados, vencidos, apreendidos e diremos, enfim e para sempre: Pai, em vossas mãos entrego o meu Espírito.

Eis nossa tarefa atual, para isso encontramos a Doutrina Espírita, sabendo que o que consola e conforta também instrui e propõe trabalhos que solidificam a vida e o aprendizado. Avante, pois. É tempo de ressurgir de nós mesmos. Somos luzes divinas em processo de expansão natural e necessária. Nada nos deterá. Seremos Cristos como Jesus e reivindicaremos trabalhos e mais trabalhos ao Pai, antes pela gratidão e após pelas expansões. Avante, pois. Eis a ordem destas horas.