(Eduardo Fernandes Paes)

 

Notadamente, a Reencarnação é uma das questões que mais suscitam um número incontável de dúvidas e interrogações, gerando consequentemente outro número incontável de pesquisas, ensaios e tratados científico-filosóficos entre estudiosos espiritualistas das mais diversas ordens.

Para os neófitos da Doutrina Espírita, as dúvidas e interrogações sobre este assunto tão fascinante não se apresentam em menor número em relação aos que professam outras doutrinas reencarnacionistas. Têm eles, no entanto, a ventura de contar com uma doutrina que se revela, e se revelou desde suas bases kardecianas, ser profundamente esclarecedora, em seus mais variados aspectos, tendo sempre como norte de orientação de seus preceitos a lógica, a razão e o bom senso.

Na verdade, a Reencarnação é uma Lei Natural, uma Lei Universal e uma Lei que se cumpre através de outras Leis.

A primeira Lei fundamental que age sobre o processo reencarnatório é a LEI DE CAUSA E EFEITO. Esta Lei nos diz que toda ação gera uma reação: uma ação boa gera uma reação boa, uma ação má gera uma reação má. Assim, observando-se uma reação, podemos concluir tranquilamente qual foi a ação que lhe deu origem. No processo de evolução espiritual do ser humano, as ações e reações boas somente auxiliam no bom andamento deste processo; já no caso de ações más, a única maneira de se corrigir as reações igualmente más, advindas como óbvias consequências das primeiras, será o refazimento das ações que lhes deram origem, ou seja, transformá-las em boas ações para que tenham como consequências boas reações, anulando dessa forma as reações negativas anteriores.

A Lei de Causa e Efeito, em resumo, vai nos revelar que a primeira finalidade da Reencarnação é o ressarcimento moral, isto é, tudo que fizemos de mal, a quem quer que seja, mesmo conosco, por egoísmo, inveja, ignorância etc, precisará ser feito de novo e, desta vez, bem feito para reparar o que estava errado.

A segunda Lei é a LEI DE AFINIDADE. Ela preconiza que os semelhantes se atraem. Exemplificando, isto quer dizer que os que se amam se unem porque se amam, e os que se odeiam se imantam porque se odeiam. Assim, seja no bem, seja no mal, tendemos por lei a nos reunir com os mesmos Espíritos com quem estamos sintonizados, reunimo-nos nas mesmas circunstâncias a que estamos imantados, reencarnamos, por fim, em situações e com pessoas com as quais temos débitos ou créditos, tantas vezes quantas forem necessárias, para o perfeito entendimento e a completa resolução daquela fase evolutiva.

Uma segunda finalidade aqui se nos apresenta no processo reencarnatório: é o APRENDIZADO. Aprender é uma necessidade inerente à criatura humana. Sair das trevas da ignorância primitiva, pela qual muitos erros são cometidos, ocasionando sofrimentos de tipos diversos, e partir a caminho da luz da sabedoria suprema, transformando os erros em acertos, faz-se condição essencial para livrar-se dos infortúnios e alcançar a felicidade plena.

Temos, assim, de aprender a ter felicidade e a oferecer felicidade ao nosso próximo; mas somente aprenderemos a ser felizes se repassarmos esta tarefa tantas vezes quantas forem necessárias ao alcance deste ideal superior.

Finalmente, uma terceira Lei que trabalha a favor da Reencarnação é a LEI DO PROGRESSO. Tudo se aperfeiçoa constantemente no Universo. Do microcosmo ao macrocosmo, cada coisa possui o seu processo de aperfeiçoamento até o máximo de suas potencialidades. O máximo da condição humana, como nos esclarece o Espiritismo, é o estado de Espírito puro, que conseguiu atingir um grau de perfeição relativa, pois a perfeição absoluta só Deus a tem.

Nesse sentido, a terceira finalidade da Reencarnação é a EVOLUÇÃO. Precisamos evoluir física e espiritualmente , mas só conseguiremos evoluir a contento quando resgatarmos nossas dívidas, aprendermos a nos aperfeiçoar na prática das boas ações, gerando com isso amor e felicidade aos que nos cercam.

Vistas essas três finalidades da Reencarnação, destacaremos agora os diversos momentos em que a Misericórdia Divina atua, de forma clara e decisiva, no processo reencarnatório, tanto na preparação do Espírito reencarnante na erraticidade quanto em sua atuação no plano físico já como alma encarnada.

Em verdade, a Misericórdia Divina está nas condições em que a Lei da Reencarnação se cumpre. Veremos que, na erraticidade, essas condições se apresentam, pelo menos, em 2 momentos distintos:

  1. No acesso do Espírito ao seu passado e às suas respectivas consequências, ou seja, com sua visão espiritual ampliada o ser errante pode planejar sua volta ao mundo físico para o resgate de dívidas pretéritas, cumprimento de tarefas etc;
  2. Na assistência espiritual, onde técnicos de programação reencarnatória prestam valioso auxílio ao planejamento da nova encarnação, orientando com detalhes o que o Espírito poderá e/ou deverá passar em sua próxima existência.

Já encarnado o Espírito, no entanto, a Misericórdia do Pai se dá sobretudo em quatro momentos específicos:

  1. No esquecimento dos fatos e vínculos com tudo o que diz respeito a encarnações passadas, proporcionando assim uma nova chance de recomeçar do zero a construção de um ser moral e espiritualmente mais aperfeiçoado, sem pressentir, contudo, o que o aguarda em termos de provas e expiações, em sua atual encarnação;
  2. Nas diversas oportunidades de refazer, numa mesma encarnação, as tarefas planejadas na erraticidade com a ajuda dos assessores espirituais que continuarão a prestar assistência, agora, por meio de recados inspirados ao pensamento do reencarnado que, igualmente, receberá a intercessão dos Espíritos superiores em alguma circunstância mais sofrida, no sentido de aliviá-la ou mesmo atenuá-la, caso tenha o merecimento necessário;
  3. Na assistência material de companheiros afetuosos que reencarnam junto com o Espírito necessitado de alento, orientação e apoio em várias fases de sua existência terrena;
  4. Na possibilidade de concentrar diversos ressarcimentos e aprendizados em uma mesma encarnação, economizando dessa forma encarnações no processo evolutivo com a consequente eliminação ou atenuação de futuros resgates dos erros de vidas passadas.

Assim, podemos observar, nesses vários momentos, a Infinita Misericórdia da Justiça de Deus atuando, de maneira decisiva, em benefício de nossa evolução espiritual.

A Reencarnação é um meio proporcionado pela Sabedoria Divina a todos os seres para a conquista da suprema meta: a perfeição em Deus. Por meio dela, o Espírito passa por todas as provas e realiza todas as experiências de que necessita para, de grau em grau, subir os degraus infinitos que permeiam entre sua inferioridade primitiva e a Divina Perfeição.

Jesus, que entre muitas afirmativas no Evangelho, nos permite concluir pela existência e necessidade da Reencarnação, fez mais esta:

“Sede perfeitos como perfeito é o Pai Celestial”.

Parece-nos, também aqui positivada, a necessidade de ser a perfeição alcançada gradativamente por vidas sucessivas, porque impossível é a qualquer espirito, criado simples e ignorante, galgar os degraus que separam o imperfeito do perfeito em uma só existência, ou mesmo em um só ciclo de qualquer planeta no Universo, pois sabemos ser infinito o número deles.

Em suma, lembremo-nos sempre de que Reencarnação é o Eterno Perdão de Deus aos nossos erros, permitindo-nos o eterno recomeço com a sensação misericordiosa de que o mérito final é só nosso.