Na história da civilização é inegável a importância da relação que o homem tinha com as forças da Natureza, tentando controlar o que podia ser usado a seu favor, mas respeitando e temendo o que não podia controlar. Assim, desde sempre, o Espírito encarnado lida com desafios e dificuldades, todas as situações em cujo enfrentamento desenvolvia a inteligência e o senso moral. Mas no curso do seu entendimento, no início interpretava muitos desses desafios e dificuldades como favores ou punições que eram atribuídas às divindades que nasciam da sua relação com o desconhecido.
O ponto de partida da nossa pesquisa nos situa na Europa, quando a vários povos ocorreu a tendência de festejar a chegada da primavera, que representava a passagem dos rigores do inverno para um tempo onde tudo chamava à continuidade da vida, com dias luminosos e de temperatura agradável, espaços verdejantes, solo arável, e abundância de caça. Natural que o homem quisesse expressar a sua gratidão às divindades pela chegada desse tempo.
Esses festejos tiveram desenvolvimentos diferentes, de acordo com os povos, tanto do ponto de vista da simples tradição como também do da religiosidade. Entre os celtas, marcadamente pelo druidismo, festejava-se a chegada do equinócio da primavera, os dias e as noites com a mesma duração, como símbolo do equilíbrio, a passagem da escuridão para a luz, como renascimento. Antes disso, os acádios e sumérios adoravam a deusa Ishtar, ligada ao amor e à fertilidade, o que mais tarde iria influenciar os povos nórdicos. Dessa forma, entre os germânicos, a deusa e os eventos ligados a ela deram origem à palavra Ostern, que passou a significar Páscoa e entre os bretões deu origem à palavra Easter, com o mesmo significado. Vem daí o coelho, como símbolo de fertilidade e os ovos, que eram pintados e trocados como presentes, como símbolos de transformação e continuidade da vida. Não se estranhe, portanto, que através dos colonos europeus a tradição tenha trazido até nós esses símbolos.
Dentre esses povos, um deles nos interessa em particular, o povo hebreu. Interessa-nos, porque foi o povo que mais e melhor generalizou a ideia do Deus único na nossa civilização, atendendo aos objetivos da Espiritualidade, canalizando a religiosidade para objetivos mais específicos, de desenvolvimento moral.
Os hebreus foram nômades durante muito tempo e é importante considerar o nomadismo como movimento civilizatório, não só como disseminador de tendências e tradições, mas também para compreender de que forma os povos nômades acabavam cativos dos que estavam estabelecidos em centros urbanos mais estruturados, com fontes perenes de recursos vitais. Foi assim que os hebreus terminaram cativos na Babilônia e Abraão, quando liderou a saída deles de lá, para descer o vale do Ur, entre o Tigre e o Eufrates, em direção à prometida terra de Canaã, fundou entre eles o monoteísmo.
Os festejos da chegada da primavera, na época pré-mosaica, entre os hebreus, tinha o nome de Pessach – que pode ser interpretado como ‘passagem’, pois passavam das agruras do inverno para a bonança da primavera.

Aproximadamente dois mil anos depois vamos encontrar os hebreus estabelecidos e mais uma vez cativos, desta vez, no Egito.
Moisés, Espírito de missão especial entre os hebreus, tanto de libertação do povo quanto de fazer evoluir a religiosidade, pela observância às leis de Deus, foi quem promoveu a ressignificação da Páscoa, na mobilização para a liberdade dos hebreus, então cativos.
Conta-se, a respeito desse novo significado pascal, que Moisés pleiteava a liberdade do povo hebreu do cativeiro, coisa na qual o faraó não queria ceder. Essa relutância do faraó deu origem às pragas do Egito. Como derradeira maldição, como se conta, Moisés recebeu a missão de instruir o povo hebreu a que cada família tomasse de um cordeiro, que ficasse com o animal certo tempo dentro de casa e depois que o sacrificasse e alimentasse com a carne toda a família e o dividisse com outras famílias que não tivessem um cordeiro para sacrificar; mas que usassem o sangue do cordeiro para marcar as laterais e a soleira da porta, para que o anjo do Senhor identificasse e poupasse aquelas casas da morte do primogênito, de acordo com a praga anunciada por Moisés. Vem daí o significado mais amplo da palavra pessach, que não significa apenas passagem, mas que nessa acepção também significa ultrapassar, pular (a casa que estivesse marcada). Tal se deu e o faraó, vendo que os primogênitos egípcios, incluindo seu próprio filho, tiveram a vida ceifada, concedeu, então, liberdade ao povo hebreu, pelo menos como decisão inicial, como reação ao ocorrido. Foi recomendado ao povo hebreu que sempre observasse essa data como a data da libertação do povo. A partir desses acontecimentos, a Pessach passou a ser a festa judaica mais importante.

Aproximadamente dois mil anos depois, encontramos os seguidores de Jesus, que sabiam que, em Jerusalém, as festividades da Páscoa reuniam muita gente e quiseram que Jesus fosse a Jerusalém precisamente nessa ocasião, para que o seu Evangelho tivesse total projeção.
Não se tem certeza de exatamente quando, nem exatamente como, nem exatamente por quem, mas o fato é que, como foi em Jerusalém e durante aqueles festejos, que Jesus foi crucificado, os cristãos promoveram uma nova ressignificação do sentido da Páscoa, passando a celebrá-la como a ressurreição do Cristo três dias depois da sua crucificação.
Da mesma forma que entre os judeus, a Páscoa se tornou a principal celebração do ano litúrgico cristão, sendo a mais antiga e importante comemoração do Cristianismo.
No início, os cristãos, embora com o significado da Páscoa totalmente diferente, celebravam a Páscoa cristã no mesmo dia 14 de Nisan do calendário judaico, mas depois, como que a querer deixar clara a diferença de significado, passaram a comemorar no primeiro domingo depois da Pessach. Como o calendário vigente era o juliano, a cada ano, a mobilidade do evento (pois é uma festa móvel) fazia cada vez mais adentrar o verão. Com a adoção do calendário gregoriano, mais perfeito, e para que fosse definitivamente separada a Páscoa cristã da judaica, foi determinado, no primeiro Concílio de Nicéia, em 325, que o domingo da Páscoa cristã seria o primeiro após a primeira lua cheia, depois de iniciado o equinócio de primavera (no hemisfério norte) ou de outono (no hemisfério sul). Portanto, como festa móvel, varia de 22 de março a 25 de abril e determina todas as outras datas, com exceção do Natal.

Da Páscoa, portanto, percebe-se a manutenção da tradição, mas ao mesmo tempo a evolução da religiosidade, nos diferentes movimentos de ressignificação.
De religiosidade, podemos entender a tendência ao culto do que seja considerado sagrado e divino, mas percebe-se, desse conceito, que explica sentimentos que se desenvolvem de acordo com a compreensão do objeto de culto.
Mas, e a tradição?
Tradição pode significar a transmissão oral de fatos, lendas, ritos, usos, e costumes, de geração em geração, pode significar herança cultural, pode ser simplesmente tudo o que se pratica por hábito ou costume adquirido, bem como o conjunto de valores morais e espirituais, transmitido pelas religiões, pelas famílias ou por grupos afins.
A tradição é útil quando se mistura à religiosidade para fixar e fazer repetir determinado comportamento que carrega simbolismos que ajudam a espiritualizar. Mas, embora tradicionalismo e religiosidade muitas vezes se misturem, em muitas outras situações estão completamente separados.

São feitas muitas críticas ao tipo de comemoração da Páscoa que segue a tradição, com seus coelhos, sua caça aos ovos de chocolate e a troca de presentes. Parece relevante fazer compreender que as pessoas, ao agirem assim, de forma alguma estão dando mais importância a ovos de Páscoa do que ao sacrifício de Jesus. Apenas estão seguindo uma tradição que surgiu muito antes de Jesus, mesmo muito antes de Moisés, como vimos. E ao seguirem essa tradição, não estão sendo politeístas, adorando alguma divindade. Não parece fazer sentido achar que as pessoas, ao comemorarem a Páscoa, estejam revivendo rituais pagãos. Seguir uma tradição de trocar presentes, sem nem saber quando nem como começou, não pode ser nenhuma ofensa a Jesus. As tradições se mantêm como corpos que um dia, quando não tiverem mais serventia, desaparecerão, mas a essência espiritual que busca a convivência com o divino, evolui sempre.
Até hoje, mesmo muito tempo após a ressignificação feita por Moisés, muitos judeus, mesmo após a diáspora, ainda festejam resquícios da antiga forma de Pessach, no início da primavera, como festa agrícola e nem por isso deixam de observar a Torá.
É preciso entender que as pessoas têm idades espirituais diferentes, estão em momentos evolutivos diferentes, portanto, cada pessoa vive o que pode, em religiosidade. Se elas ainda necessitam das tradições para reviver situações de afetividade, pelo menos parece muito melhor que elas troquem presentes entre si do que vivenciem sentimentos negativos, isso, sim, criticável…

E nós, os espíritas? Como devemos entender e viver essas coisas?
Não é raro encontrar quem se diga espírita, mas observe disciplinadamente as tradições religiosas católicas. Não é raro encontrar quem vivencie a tradição mosaica da Páscoa, reverenciando o sacrifício do cordeiro.
Bem, nada a julgar. Provavelmente ainda ontem eram católicos.
Mas, se alguém passar a vista em todos os índices gerais de todos os livros do pentateuco kardequiano não vai encontrar a palavra “tradição” como verbete autônomo em nenhum deles. Nada, em quaisquer desses livros, mesmo em toda a literatura espírita, nos conclama a observar qualquer tradição, popular ou mesmo religiosa.
A sermos realmente espíritas, devemos, em primeiro lugar, profundo respeito às crenças dos nossos irmãos em Deus, mas sem esquecer que o Espiritismo não tem ritos, nem cerimônias, nem tradição alguma. Como espíritas, não necessitamos mais de observar tradições para canalizar a nossa religiosidade. Nosso esforço para mudar da adversidade para o equilíbrio, da sombra para a luz, do conflito para a paz, deve ser pessoal e diário, não necessita de equinócios ou lunações para ser renovado a cada ano. Nós já somos livres, porque já compreendemos nosso papel na vida. Da nossa relação com a Natureza, a única coisa a lamentar é a própria ineficiência em lidar com ela.
Ainda como espíritas, não devemos julgar quem ainda não vivencia esse tipo de consciência, pois há bem pouco tempo éramos nós a estar na mesma situação. Sejamos sempre solícitos e compreensivos, que é o que se deve esperar de nós.

Que o amor que votamos a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, transcenda a tradição e se transforme em necessidade do coração.

 

Celso Andreoni;
26.03.2018