O LIVRO DOS ESPÍRITOS, 162 anos da 1ª edição

Por Alexandre Burburan

Desde que O Livro dos Espíritos veio a público em 18 de abril de 1857, lançado no Palais Royal, muito se tem dito a seu respeito. Como obra fundadora da Doutrina Espírita, ele trata dos aspectos científico, filosófico e religioso da Doutrina e nele são lançadas as bases que seriam desenvolvidas e exploradas pelo Codificador ao longo de toda a Codificação. Por isso mesmo, o livro passou a ser o ponto de partida para todos que desejaram refutar o Espiritismo, ou reafirmá-lo.

A primeira edição apresentava somente 501 perguntas. A segunda edição francesa, lançada em 18 de março de 1860, foi tão revista que praticamente se converteu em um “novo livro”, embora nenhum dos princípios doutrinários tenha sofrido qualquer modificação. Nessa edição definitiva, o número de perguntas mais que dobrou e Kardec alinhou 1018 questões. A FEB, mais tarde, permitiu-se corrigir uma aparente falha na numeração das perguntas:imediatamente após a de número 1010, teríamos uma outra, cuja numeração fora esquecida. Assim, a FEB introduziu uma nova numeração a partir da de número 1010, chegando até 1019. Na prática, com numeração revista ou não o número total de itens se eleva a 1019.

Falar sobre o Livro dos Espíritos, 162 anos após o seu lançamento, nos levainevitavelmente a lugares comuns; informações que já foram repetidas centenas de vezes ao longo do tempo e que podem ser encontradas em uma simples busca na internet. Isso não deve nos impedir de reafirmar o caráter reformador do Espiritismo, claramente expresso no Livro. É essa característica marcante que tem produzido forte impressão nos leitores e produzido modificações profundas na forma como a Humanidade tem se postado diante do fenômeno da morte, da existência e do Universo.

Cada pessoa, ao mergulhar na leitura, extrai as suas próprias conclusões. As reações e interpretações, únicas e intransferíveis, levam alguns, como Bezerra de Menezes, a se sentirem totalmente familiarizados com o conteúdo, mesmo reconhecendo a sua originalidade e admitindo nunca terem lido algo semelhante anteriormente. Outros leitores, pegos de surpresa pelo chamado tão vívido à reforma, acabam temerosamente rejeitando aquilo que as suas razões aceitam, mas o comodismo e o imediatismo de suas existências em busca de prazer e gozos resistem em modificar. E ainda há aqueles que, apegados a tradições, vencidos pelas suas fraquezas interiores ou motivados por interesses materiais, negam as evidências que gritam em suas mentes.

A própria forma da obra, apresentada através de perguntas e respostas, deixa que cada leitor se concentre naquelas que mais tocam as suas necessidades. Embora o texto seja direto e explícito, cada um acaba colhendo as informações que sejam mais afins com as suas dúvidas e necessidades evolutivas.

Para todos que ouviram os escaninhos de suas almas, cheias de desejos de libertação dos grilhões materiais, que não se deixaram seduzir pelo orgulho e a vaidade materialistas, a revelação, vindo, por assim dizer, da própria boca dos desencarnados, garantido que a criatura humana nada mais é do que um espírito revestido de um corpo material, foi somente a confirmação do queintimamente já sabiam; nada ali lhes pareceu completamente desconhecido.

Se o conhecimento da sobrevivência da identidade, após a morte do corpo físico, não foi uma notícia absolutamente nova para a maioria, saber que existe um corpo espiritual (perispírito), que une espírito e matéria e é a base de todos os fenômenos mediúnicos, veio esclarecer e pacificar corações e mentes ansiosos por respostas.

A desmistificação da concepção das penas eternas e das figuras grotescas de um submundo infernal, com a reafirmação e glorificação da Bondade Divina,através do princípio da reencarnação, veio reconciliar os espíritos sensíveis e caridosos com a figura do Pai Eterno, que Jesus nos revelou. Todas as explicações, alinhadas com lógica primorosa, tranquilizaram os pios, que puderam conhecer a verdadeira extensão da Justiça Divina. Finalmente, os que partiram para o plano espeiritual voltavam para nos testemunhar que todos fomos criados simples e ignorantes, mas progressivamente evoluímos, até nostornarmos livres de qualquer vínculo com o sofrimento e as práticas desviadas do Bem.

Por fim, a preservação da memória dos laços profundos que nos uniram em diferentes existências corpóreas fez com que descortinássemos os ilimitadosdomínios do Amor; que nada se perde em nossas relações e todas as almas se entrelaçam em um futuro de venturas e mútuo serviço.

O Livro dos Espíritos, em última análise, nos deixou a consolação de que nossas faltas não são irremissíveis, nossos amores não se perdem após a morte do corpo e a grande e justificada esperança de que todos, inevitavelmente, ao cabo de mais ou menos tempo, de acordo com o nosso empenho, chegaremos ao Reino dos Céus prometido por Jesus.