Jesus esteve cinco vezes em Jerusalém, durante o seu ministério público, por ocasião das principais festas judaicas Nas páscoas dos anos 31,32 e 33, na dos Tabernáculos (cabanas) do ano 32 e, em dezembro do mesmo ano, retornou a milenar cidade durante uma festividade bem mais recente, a Festa da Dedicação. Esta festa recordava a nova consagração do Templo à Deus, após Judas Macabeu conquistar Jerusalém, que estava sob domínio grego, por volta do ano 150 a.C. Os gregos utilizaram o Templo para adorar o deus Zeus.

 

Jerusalém tinha um grande número de tanques, particulares e públicos, para o uso diário da água, mas necessitava de piscinas para que, durante as festas, o grande número de peregrinos, principalmente os judeus da diáspora, pudessem se purificar antes de entrarem no Templo. Jesus curou um paralítico na piscina de Betesda e um cego na de Siloé.

 

A cura do cego de Siloé, culminou uma série de dramáticos acontecimentos, envolvendo o Mestre e os sacerdotes do Templo, ocorridos durante a Festa das Cabanas do ano 32. O evangelista João dedicou mais de 2 capítulos para descreve-los. Ao final os  sacerdotes, sem argumentos, pegaram pedras  para agredir Jesus. Discípulos e simpatizantes protegeram o Mestre, retirando-O rapidamente do Templo, escapando pela parte velha da cidade construída por Davi séculos antes. Lá situava-se a piscina de Siloé, onde Jesus curou um homem cego de nascença que passava seus dias pedindo moedas para os muitos peregrinos que se purificavam nela. O caso teve grande repercussão, levando as autoridades do  Sinédrio instaurarem uma investigação, principalmente porque era sábado, dia reservado ao descanso, segundo à Lei.

 

A passagem narrada por João é muito rica de ensinamentos, onde destacamos a afirmação do Mestre: “Eu vim para que tenham a vida, e a tenham em abundância.”

 

Vida é uma palavra focal nos Evangelhos, em especial no de João, que mencionou em 17 ocasiões “vida eterna”. Talvez por ter sido o último a ser escrito, quando já existiam comunidades cristãs, ele quis enfatizar que a vida eterna não é apenas a promessa, mas também a qualidade de vida das pessoas que já vivem, presentemente, segundo os valores da eternidade.

 

Acima do ter, parecer ou estar, o verbo mais importante na vida abundante é o ser. O próprio Mestre utilizou-se dele em sete ocasiões, nos famosos “Eu Sou”. A atualidade desse ensinamento é fundamental, pois se opõe a chamada teologia da prosperidade, surgida nos EUA no início do século XX, e  que vem ganhando muitos adeptos na cristandade, em vários países.  Baseada na confissão positiva (o que eu confesso eu possuo) traz a promessa do celeste porvir para o terrestre presente (imunidade ao sofrimento, sucesso financeiro, projeção social e etc). Os teólogos da prosperidade utilizam este ensinamento de Jesus, esquecidos que vida abundante significa vivenciar experiências dignas com os valores da imortalidade.

 

A vida imortal foi testemunhada por Jesus na sua ressurreição, anunciada por Maria Madalena, a ex-pecadora de Magdala, trazendo de volta a esperança para a comunidade cristã, que estava acuada e temerosa com a crucificação do Mestre. Posteriormente, quando os cristãos tiveram que testemunhar com o sacrifício da vida a fidelidade ao Mestre Querido, a ressurreição era a certeza da vitória da vida sobre a morte do corpo. No cristianismo primitivo, portanto, a páscoa foi mais popular do que o natal.

 

A ressurreição aconteceu durante a Páscoa judaica, que relembrava a libertação do Egito, acontecida 1.300 anos antes. Era a passagem (páscoa) para a liberdade.

 

A Pascoa cristã, oficializada no Concílio de Nicéia em 325, celebra a passagem para a vida verdadeira e imortal, simbolizada na tradição dos ovos de Páscoa.

 

Por Guilherme Kremer