O Céu e o Inferno

 

Guaraci de Lima Silveira

 

“As ideias novas só frutificam quando o terreno está preparado para os receber”. Com este pensamento Allan Kardec apresenta o livro “O Céu e o Inferno” na Revista Espírita de setembro de 1865. Aquele foi o ano de lançamento da referida Obra que tem por objetivo esclarecer o homem sobre o seu destino. Como subtítulo lê-se: “A Justiça Divina segundo o Espiritismo”. Com certeza muitas pessoas queriam esclarecimentos sobre a vida após o desenlace físico. Bom considerar que naquela época o materialismo e o mecanicismo imperavam nas mentes mais esclarecidas da Europa e do resto do mundo ocidental. Egressos de uma religião dogmática que não se coadunavam com os avanços científicos as pessoas buscavam algo mais substancioso para suas reflexões e que preenchessem as lacunas deixadas pelo vazio das constantes afirmações teológicas e filosóficas que em quase nada se ajustavam com os novos conhecimentos que avançavam velozmente.

 

“O Livro dos Espíritos” já havia sido lançado e nele se viam as bases fundamentais do Espiritismo e como disse Allan Kardec: “A pedra angular do edifício” Então tornava-se necessário que novas informações viessem para dar seguimento às propostas espíritas, até mesmo como um ensino complementar. É sempre bom lembrarmos que os quatro livros seguintes ao “Livro dos Espíritos” tais como; “O Livro dos Médiuns” “O Evangelho Segundo o Espiritismo” A Gênese” e o próprio livro “O Céu e o Inferno” surgiram como um desenrolar da obra básica, cabendo a cada um desses livros tratar de matérias específicas. Coube então ao livro “O Céu e o Inferno” tratar da justiça, penas e recompensas futuras.

 

E o que seria o inferno? Como surgiu sua ideia entre os humanos? Antes da vinda de Jesus encontramos na literatura Greco-clássica alusões a um lugar de tormento para os maus. Por exemplo, a famosa Odisséia de Homero (rapsódia 11) descreve uma pretensa viagem de Ulisses à região inferior do Hades, onde mantém diálogo com a alma de vários mortos que sofriam pelos maus atos deles. Sabe-se que Hades na mitologia grega é o deus dos mundos inferiores. Também Platão, em sua obra A República, alega que “a nossa alma é imortal e nunca perece”. Daí que a imortalidade da alma necessita ser explicada. Qual é o destino de todos após o desenlace físico? Como existem pessoas boas e más, para esses últimos e, naqueles conceitos, a região infernal seria o destino. Para amedrontar as almas frágeis, imaturas e ignorantes, aquele local seria de um fogo abrasador, queimando sem cessar e por toda a eternidade os que não conseguissem se realizar perante as Leis Sábias e Amorosas de Deus. Um tormento, uma contrapartida ao que é a bondade do Criador. E o purgatório. Como surgiu? A partir de qual ideia e em qual tempo?

 

Encontramos a seguinte citação no site: Mundo Educação: “Na Idade Média notamos o desenvolvimento de uma série de fatos e experiências históricas que fizeram da Igreja uma das mais poderosas instituições daquela época. A difusão dos preceitos cristãos pela Europa e em outras partes do mundo fez com que os dirigentes desta denominação religiosa interferissem profundamente nos hábitos, concepções e modos de agir de um grande número de pessoas daquela época”. Interessantes são os estudos relacionados àquela fase da nossa história. Diríamos mesmo que foi um ajustar do homem para as grandes conquistas que viriam a partir da Renascença. Emmanuel, no livro: “A Caminho da Luz” nos informa que foi um estágio do homem junto à natureza visando seus ajustes espirituais, após tantas guerras travadas no passado.

Desta forma é de fácil observação que até o século XII, “… o cristão estava destinado às glórias e o conforto dos céus ou ao tormento eterno mantido nas profundezas do inferno. A proposição de destinos tão diferentes, fez com que vários fiéis buscassem uma vida predominantemente voltada para a garantia de salvação. Mas como bem sabemos, desde aquele tempo, os pecados atingiam a muitos cristãos e, por isso, pairava uma enorme dúvida sobre qual seria o destino de alguém que não foi nem completamente bom ou ruim” como colocado no site do Mundo Educação. Bom também lembrarmos que naquele instante a ordenação social legitimada pela igreja já passava do seu controle. As coisas estavam se modificando e não mais o clero, nobrezas e servos. Novas propostas estavam surgindo e o comércio, fruto das navegações, inseriam novos conteúdos ao contexto social principalmente com a criação e manutenção dos burgos, das oficinas dos artesãos, das ideias filosóficas e artísticas e do enquadramento do homem a novos regimes sociais.

Com tamanha efervescência urbana não se tinha mais segurança ao dizer que alguém, ao morrer iria para o céu e o inferno, pois que existiam aqueles não tão bons e nem tão maus. Como ficaria então a situação de tais pessoas? Como deus resolveria tal situação uma vez que todos são seus filhos? Encontramos o seguinte no site acima citado: “ De fato essa discussão era bastante antiga e já tinha presença nos escritos de Santo Agostinho, no século IV. Segundo esse teólogo medieval, o indivíduo que teve uma vida mais inclinada ao pecado seria destinado ao Inferno, mas poderia sair dessa condição através das orações feitas pelos vivos em sua memória”. Já aqueles que não foram inteiramente bons passariam por um estágio de purificação que poderia trazê-lo para os céus.

Segundo alguns historiadores, a ideia de que o purgatório fosse um “lugar à parte “ somente tomou forma entre os séculos XII e XIII. Os judeus acreditavam que aqueles que não eram nem bons ou maus seriam levados a um lugar onde a pessoa sofreria castigos temporários até que estivessem aptos para viverem no éden. Ficariam no limbo, ou seja, à margem, à beira das Leis de Deus. Entre os indianos, os “intermediários” poderiam viver uma série de reencarnações que os levariam até os céus ou ao inferno. Sem dúvida, podemos ver como a própria condição do homem e sua experiência histórica influíram na visão de mundo de várias crenças. E foi nesse cenário de ideias que surgiu o Espiritismo como a proposta de trazer ao conhecimento de todos novas ideias que coadunassem com a absoluta sabedoria e bondade de Deus.

Os céus seriam para os bons, o inferno para os maus e o purgatório uma região intermediária onde se podia chegar à salvação se o arrependimento surgisse naquelas almas que ali se encontravam. Também tentavam justificar pela ideia do purgatório o destino das crianças que desencarnavam, elas não haviam feito nem o bem e nem o mau, assim, para onde iriam? O interessante de tudo isso é observarmos como os movimentos das ideias e pesquisas traziam o homem para o estágio das reflexões. A espiritualidade ajudava, Jesus coordenava, mas os caminhos deveriam ser humanos. Allan Kardec disse: “As ideias prematuras abortam porque não se está maduro para as compreender e ainda não se faz sentir a necessidade de uma mudança de posição”. Então, com o passar do tempo novas propostas e posições são necessárias e o próprio Codificador dizia que “a humanidade está no trabalho de parto, há qualquer coisa no ar, uma força irresistível que a impele para frente; ela está como um jovem saído da adolescência, que entrevê novos horizontes sem os definir…”

 

O livro “O Céu e o Inferno” faz um exame comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corporal à vida espiritual, sobre as penalidades e recompensas futuras, sobre os anjos e demônios, sobre as penas, etc. seguido de números exemplos acerca da situação da alma durante e depois da morte, como se lê no preambulo do referido livro. Os anjos são ali estudados como uma categoria de Espíritos superiores e dos demônios como categoria de Espíritos inferiores ainda ligados ao mal e à ignorância. O céu como um estágio superior da consciência e o inferno como um estágio ainda inferior e o purgatório como estágios prematuros da consciência que ainda não se definiu para o bem, realizando ainda obras coadunantes com o mal. O livro se desenvolve em duas partes. Allan Kardec assim as define” “A primeira parte desta obra contém o exame comparado das diversas crenças sobre o céu e o inferno, os anjos e os demônios, as penas e recompensas futuras; o dogma das penas eternas aí é encarado de maneira especial e refutado por argumentos tirados das mesmas leis da natureza e que lhes demonstram não só o lado ilógico, mas a sua impossibilidade material” A segunda parte é composta por uma série de comunicações de Espíritos desencarnados e em variados estágios, comentando suas posições na erraticidade. Diz-nos Allan Kardec: “A vida de além-túmulo aí se desenrola sob todos os seus aspectos, como um vasto panorama; cada um aí exibirá novos motivos de esperança e de consolação e novos suportes para firmar a fé no futuro e na justiça de Deus”.

 

Particularmente gosto muito do primeiro capítulo do livro: “O Porvir e o Nada”. Com muita propriedade o Codificador acaba com a dúvida se existe ou não vida além da morte. Ele questiona: “Mas, deixando a Terra, para onde vamos? Que seremos após a morte? Estaremos melhor ou pior? Existiremos ou não? Ser ou não ser, tal a alternativa. Para sempre ou para nunca mais, ou tudo ou nada. Viveremos eternamente, ou tudo se aniquila de vez? ” Perguntas essas que pairam nas cabeças de muitas pessoas nessa nossa atualidade daí a necessidade do livro ser lido e estudado continuamente.

 

A Obra então se desenvolve nas respostas a essas dúvidas com tal modalidade que nos encanta ao mesmo tempo em que nos acomodada em nós para a continuidade do nosso projeto evolutivo proposto por Deus quando nos criou. “Começai por bem saber, bem compreender, e, sobretudo, bem praticar o que sabeis, a fim de que Deus vos julgue dignos de aprender mais. Depois, quando chegar o momento, saberemos agir e escolher nossos instrumentos”. Assim nos aconselham os sábios da espiritualidade maior. Importante ainda ressaltar que ao estudarmos as obras da codificação entramos em contato com os Espíritos “… que presidem o grande movimento regenerador, pois, com mais sabedoria e previdência do que podemos fazer nós eles abarcam a marcha geral dos acontecimentos, ao passo que nós só vemos o círculo limitado dos nossos horizontes”. Isso na observação de Allan Kardec na Revista Espírita de Setembro de 1865. Eis, pois, a necessidade dos estudos espíritas. Uma vez que o nosso ponto de partida e chegada é Deus. Somente o Espiritismo pode nos facilitar tal jornada. Nessas questões sobre inferno, céu, purgatório, anjos, demônios e futuro na espiritualidade o livro “O Céu e o Inferno” torna-se um guia mais que seguro.