Podemos nos considerar bons espíritas? Allan Kardec, no capítulo XVII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 4, nos traz esta reflexão, após ter comentado sobre o homem de bem no item anterior.

 

No início do texto ele comenta na primeira frase que “Bem compreendido, mas sobretudo, bem sentido, o espiritismo conduz forçosamente aos resultados acima expostos (sobre as características do homem de bem), que caracterizam o verdadeiro espírita como o verdadeiro cristão, pois ambos são a mesma coisa”. Assim, Kardec explica nesta primeira frase do texto que, para o verdadeiro espírita, não basta compreender o espiritismo mas senti-lo.

 

Ora, sempre que uma nova teoria nos é apresentada, recomenda-se que devemos entendê-la para depois compreendê-la, que são coisas completamente distintas. A compreensão está relacionada com o sentido de ter entendido e colocado em prática de alguma forma. Porém, para o verdadeiro espírita, além disso, torna-se necessário o sentimento, ou seja, a doutrina espírita entrar no coração dos seres humanos, através da implantação da humildade, simplicidade e da caridade.

 

Desta forma, Kardec ratifica o exposto pelo Cristo há mais de 2000 anos, de que devemos “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” e o que foi dito pelo espírito de Verdade, “Espíritas!, amai-vos, eis o primeiro ensinamento. Instruí-vos, eis o segundo.”

 

Trazer a doutrina espírita para o nosso coração, requer a prática desses ensinamentos trazidos por Jesus, no sentido de olhar para o nosso próximo não com indiferença, mas estar sempre questionando o seguinte: “como eu posso ser útil para ele?” Que possamos julgar menos e agir mais, que possamos ser mais caridosos (material e moralmente) com os nossos irmãos. Este é o convite para que a doutrina espírita possa entrar em nossos corações e que possamos senti-la verdadeiramente.

 

Kardec, neste texto, alude ao cristianismo, tamanha simplicidade, profundidade e amorosidade. Jesus tem entre seus discípulos os pescadores de Carfanaum e não os filósofos de Atenas, já pensaram nisso? Não seria melhor os filósofos de Atenas por terem sido pessoas mais cultas e inteligentes? Não, meus irmãos, eles não estavam preparados para a tarefa, pois era preciso que a mensagem trazida pelo Cristo pudesse entrar no coração daquelas pessoas e, assim, os pescadores de Carfanaum eram os que estavam mais qualificados naquele momento para a tarefa. Perceberam a lógica por trás deste contexto?

 

 

 

Kardec continua sua reflexão, explicando que para a doutrina entrar em nosso coração, é necessário que tenhamos a maturidade do senso moral, isto é, a maturidade que independe da idade e do grau de instrução, porque é inerente ao desenvolvimento. Para isso, de novo, torna-se fundamental que os conceitos e o sentimento de caridade e de humildade estejam na nossa alma, cabendo-nos o ato de servir ao próximo, como o exercício contínuo – vamos ouvir mais o desabafo do irmão que nos procura, que possamos doar uma garrafa de água ao irmão que se encontra nas ruas durante o forte calor ou um cobertor em boas condições que não usamos e guardamos em nossos armários durante o período de frio, ceder o lugar, dar um bom dia/boa tarde/boa noite sincero olhando no olho da pessoa para ela se sentir acolhida. Esta é a palavra chave que devemos passar ao outro através das nossas leituras e estudos doutrinários: ACOLHIMENTO.

 

Espiritismo bem sentido é muito melhor que espiritismo bem compreendido, meus irmãos. E, aproveitando o ensejo, não existe fé raciocinada sem caridade aplicada. Meditemos sempre nessas palavras! É ótima a leitura dos livros, assim como seus estudos, mas se não aplicarmos a caridade, não adiantará muito.

 

Ser espírita não é frequentar reunião pública semanalmente, tomar passes e beber a água magnetizada. Não podemos ficar limitados a isso! Pensemos sobre isso que vos escrevo.

 

Allan Kardec, continuando com sua dissertação, nos explica o conceito de espíritas imperfeitos, que trazemos para esta encarnação nossas tendências instintivas e, por mais que tenhamos a misericórdia divina do esquecimento do passado, percebemos essas tendências em nossa alma. Não nos tornaremos de uma dia para outro uma madre Tereza da Calcutá ou uma irmã Dulce ou ainda um Francisco de Assis, não, este processo de evolução espiritual ocorre de forma paulatina, cabendo-nos iniciá-lo através da reforma íntima de nossos pensamentos e sentimentos. Posso, quero e devo modifica-los? Vamos começar, então! Aqui estamos nós, espíritas imperfeitos que somos! Autoconhecimento é a chave que abrirá esta porta, como já dizia Santo Agostinho quando nos orientou na resposta à pergunta 919 de O Livro dos Espíritos.

 

“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega em domar suas inclinações más”. Precisamos entender, compreender e trazer para a nossa alma este princípio para que possamos aos poucos buscar a nossa maturidade do senso moral e alcançar os objetivos traçados.

 

No livro Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier, podemos encontrar o padrão espírita:

 

1 – Transformar o coração em fonte de amor.

2 – Converter o cérebro em fulcro de pensamentos nobres.

3 – Transformar os olhos em mananciais de compreensão.

4 – Transfigurar os ouvidos em depósito de bondade.

5 – Selecionar as palavras.

6 – Consagrar as mãos ao serviço.

 

Precisamos buscar esse espírita que é falado por Kardec. Que possamos ser espíritas 24h e enxergarmos sempre o Cristo no outro irmão, servindo-o como se estivesse servindo à Jesus.

 

Muita paz, meus irmãos.

(por Ricardo Gembarowski)