Carta para pessoa amiga, pelo passamento de um familiar

Inexorável e ininterruptamente pessoas chegam ao plano físico e dele partem como viajantes do comboio do tempo circulando nas estações da vida.
Nós, esses viajantes, aportamos aqui para cumprir os ciclos de existência física necessários à evolução. E se é verdade que esses ciclos têm fim inadiável, também é verdade que a sabedoria divina jamais poderia nos condenar à infelicidade por isso. É compreensível que a separação de espírito e corpo transtorne quem há muitas existências veja nesse evento o fim de tudo. Mas se a Natureza, sabidamente a favor da criação, nos impõe o inevitável término da experiência é porque assim deve ser e quando muito se sofre diante deste fato, certamente é porque os motivos de tal imposição natural são pouco ou nada compreendidos.
A cada evento desses de que se tem notícia devemos nos lembrar de que a vida nunca muda o seu curso se sofremos por não compreendê-la.  Antes, espera que resolvamos examinar mais detidamente a hipótese que fala da fé no futuro. E então, durante esse mergulho questionador, a vida nos convida, amorosa e compassivamente, a perceber não ser possível que o sopro do ser se interrompa para sempre sob a lápide fria; que o Espírito não pode ser aniquilável, pois o desenvolvimento ininterrupto é o objetivo.
Sentimentos de desesperança, de frustração e muitas vezes até de revolta se automatizam ao longo das existências pela falta desse esforço investigativo, que precisa ser pessoal e espontâneo. Só o que deve morrer em nós é a falsa noção de que o corpo que falece representa toda a vida do ser.
Concentremo-nos nisso, em mudar esse impulso de dor que persiste desde todas essas existências pregressas, cristalizado pela falta de reflexão. Só amadureceremos emocionalmente quando entendermos que devemos viver em prol da verdadeira vida, que é a espiritual, onde o presente é apenas o portal por onde o futuro passa para o passado; que só mergulhamos na vida física para amealhar méritos e conquistar a autonomia espiritual, orientados pelas leis morais, na medida em que valorizamos tudo o que nos qualifique como Espíritos que somos.
Quanto aos que partem, pensemos sempre neles com amor e carinho e percebamos que amá-los nesses momentos significa respeitar o direito deles de retorno à pátria espiritual, em obediência à Natureza, sem querer prendê-los aqui com a nossa incompreensão e desesperação. Muito natural que sintamos saudades, sinal do nosso amor, mas o apego irracional não é o verdadeiro amor e só os faz sofrer quando acordam do outro lado, pois por estarem livres do corpo físico, vivem mais integral e vividamente a qualidade emocional dos pensamentos dirigidos a eles.
E quando chegar a nossa vez de partir, que possamos empreender a nossa viagem em paz e com a certeza de que a Natureza determina que as pessoas que se amam sempre se reencontrem em algum lado da vida.
E aí, teremos a certeza de que todos somos filhos do amor de Deus e que a felicidade que tanto reclamamos, sempre dependeu de cada um de nós, no empenho voluntário em descobrir a verdade que liberta e salva.
Assim, diante do perecimento físico de alguém, nas horas mais difíceis, quando percebermos que o desespero parece querer tomar conta das mentes cansadas e dos corações desesperançados à nossa volta, jamais nos esqueçamos, através da oração, de estabelecer sincera e amorosa ligação com todos esses, que a partir do plano espiritual, tanto se empenham, em silêncio, pelo nosso progresso. Eles farão de nós vetores capazes de influenciadora calma e inquebrantável confiança.

por Celso Andreoni