ASTOLFO O. DE OLIVEIRA FILHO

“A imposição de mãos, como o fez Jesus, é o exemplo correto de transmitir o passe.”

“Os movimentos que gradativamente foram sendo incorporados à forma de aplicação do passe criaram verdadeiro folclore quanto a esta prá­tica espírita, desfigurando a verdadeira técnica.”

“Os passistas passaram a se preocupar mais com os movimentos que de­veriam realizar do que com o dirigir seus pensamentos para movimentar os fluidos.”

Temos ministrado nos últimos anos diversos seminários a respeito desse tema e notamos que, felizmente, o ensinamento acima transcrito não tem causado mais nenhuma surpresa, aqui ou noutros Estados, excetuados os casos especialíssimos das Casas Espíritas que, por uma questão regimental, adotam obrigatoriamente as lições do comandante Edgard Armond, conhecido divulgador, no meio espírita, dos chamados passes padronizados.

Alguém, contudo, pergunta-nos qual é a fundamentação kardequiana para a postura acima referida.

 

O passe espírita origina-se das práticas de cura do Cristianismo Primitivo

Poderíamos responder à pergunta mencionando um único autor: José Her­culano Pires (foto abaixo), que foi, no dizer de Chico Xavier, “o metro que me­lhor mediu Kardec”.

herculano_piresCom efeito, Herculano é, ao lado de Cairbar, de Bezer­ra, de Carlos Imbassahy, uma das poucas autoridades indiscutíveis em matéria de Doutrina Espírita. Eis o que ele, a respeito do tema, es­creveu (“Obsessão, o passe, a doutrinação”, editora Paidéia, págs. 35 a 37):

“O passe espírita é simplesmente a imposição das mãos, usada e ensi­nada por Jesus, como se vê nos Evangelhos. Origina-se das práticas de cura do Cristianismo Primitivo. Sua fonte humana e divina são as mãos de Jesus.

“O passe espírita não comporta as encenações e gesticulações em que hoje o envolveram alguns teóricos improvisados, geralmente ligados a antigas correntes espiritualistas de origem mágica ou feiticista.

“Todo o poder e toda a eficácia do passe espírita dependem do espí­rito e não da matéria, da assistência espiritual do médium passista e não dele mesmo. Os passes padronizados e classificados derivam de teo­rias e práticas mesméricas, magnéticas e hipnóticas de um passado há muito superado. Os Espíritos realmente elevados não aprovam nem ensi­nam essas coisas, mas apenas a prece e a imposição das mãos.

“Toda a beleza espiritual do passe espírita, que provém da fé racio­nal no poder espiritual, desaparece ante as ginásticas pretensiosas e ridículas gesticulações.”

Mas, considerando seja isso insuficiente, lembremos algumas passa­gens extraídas da obra de Kardec, que sempre utilizou a expressão mé­dium curador em lugar de médium passista e que, quando trata do as­sunto, se refere tão-somente à imposição de mãos:

1) Em “O Livro dos Médiuns”, capítulo XIV, item 176, o Codificador do Espiritismo consigna a seguinte instrução dada pelos Espíritos:

“Se você magnetiza com o fito de curar, por exemplo, e invoca um bom Espí­rito que se interessa por você e pelo doente, ele aumenta sua força e sua vontade, dirige seu fluido e lhe dá as qualidades necessárias” (o grifo é nosso).

Não são as mãos do passista que dirigem o fluido, mas o Espírito que vem em seu auxílio.

Está dito aí, com a maior clareza possível, que não são as mãos do mé­dium passista que dirigem o fluido, mas sim o Espírito que vem em seu auxílio, o qual sabe melhor do que o encarnado qual a necessidade específica do enfermo beneficiado pela imposição de mãos.

2) Em “Obras Póstumas” (Manifestações dos Espíritos, itens 52 e 53), Kardec diz que:

“a faculdade de curar pela imposição das mãos deriva evidentemente de uma força excepcional de expansão, mas diversas cau­sas concorrem para aumentá-la, entre as quais são de colocar-se, na primeira linha: a pureza dos sentimentos, o desinteresse, a benevolên­cia, o desejo ardente de proporcionar alívio, a prece fervorosa e a confiança em Deus; numa palavra, todas as qualidades morais” (o grifo é nosso).

E acres­centa: “A ação fluídica, ao demais, é poderosamente secundada pela confiança do doente, e Deus quase sempre lhe recompensa a fé, conce­dendo-lhe o bom êxito”.

3) No número de janeiro de 1864 da “Revista Espírita” (Edicel, ano de 1864, pág. 7), Kardec inseriu uma mensagem de Mesmer (Espírito), recebida na Sociedade Espírita de Paris em 18-12-1863, em que o alu­dido Espírito analisa a questão das curas através do magnetismo animal e do magnetismo espiritual. Mesmer diz ali que Deus sempre recompensa o humilde sincero que pede a ajuda espiritual, enviando-lhe o socorro para que ele possa auxiliar o enfermo.

“Esse socorro que envia são os bons Espíritos que vêm penetrar o médium de seu fluido benéfico, que é transmitido ao doente”, afirma Mesmer.

E acrescenta: “Também é por isto que o magnetismo empregado pelos médiuns curadores é tão potente e produz essas curas qualificadas de miraculosas, e que são devidas simplesmente à natureza do fluido derramado sobre o médium; ao passo que o magnetizador ordinário se esgota, por vezes em vão, a fazer pas­ses, o médium curador infiltra um fluido regenerador pela simples im­posição das mãos, graças ao concurso dos bons Espíritos” (o grifo é nosso).

Apenas a ignorância é que nos faz crer na influência desta ou daquela fórmula.

4) No número de setembro de 1865 da “Revista Espírita” (Edicel, ano 1865, pág. 254), o Codificador ensina:

“Se a mediunidade curadora pura é privilégio das almas de escol, a possibilidade de suavizar cer­tos sofrimentos, mesmo de os curar, ainda que não instantaneamente, umas tantas moléstias, a todos é dada, sem que haja necessidade de ser magnetizador. O conhecimento dos processos magnéticos é útil em casos complicados, mas não indispensável. Como a todos é dado apelar aos bons Espíritos, orar e querer o bem, muitas vezes basta impor as mãos sobre a dor para a acalmar; é o que pode fazer qualquer um, se trouxer a fé, o fervor, a vontade e a confiança em Deus. É de notar que a maior parte dos médiuns curadores inconscientes, os que não se dão conta de sua faculdade, e que por vezes são encontrados nas mais hu­mildes posições e em gente privada de qualquer instrução, recomendam a prece e se entreajudam orando. Apenas sua ignorância lhes faz crer na influência desta ou daquela fórmula” (o grifo é nosso).

Vistas as diversas colocações de Kardec sobre o tema, resta-nos observar que a leitura atenciosa dos Atos dos Apóstolos comprovará a correção da postura assumida por J. Herculano Pires. A prece feita por Pedro, rogando a Deus lhe concedesse a ele e aos seus companheiros o poder de, estendendo as mãos sobre os enfermos, curar as enfermidades (Atos, 4:30), foi plenamente atendida, conforme mostram inúmeros fatos relatados em Atos dos Apóstolos (5:12, 6:6, 9:17, 19:6 e 28:8) e no Evangelho segundo Marcos (5:23 e 16:15 a 18), visto que Lucas, o autor de Atos, nos informa que “pelas mãos dos apóstolos se faziam muitos milagres e prodígios entre a plebe“, sem fazer qualquer referência a passes padronizados, longitudinais, rotatórios, de dispersão ou de varredura.